segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Reconexão

"Se você não lembra quem você é, como pode estar cumprindo seu propósito?"

Toda narrativa de mundo é uma narrativa de si.

 Ao narrar, muito do "si" se torna evidente:

Vocabulário, repertório,

lugar em que nasceu no mundo.

Vieses, medos, anseios.

Idade. Rotinas.

Vícios.

Intenções.

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O que é priorizado naquilo que compartilhamos diz muito sobre nós, nossos propósitos, nossa identidade.

A narrativa permite expressarmos tanto de quem somos... Mesmo quando esse não é o objetivo. Mesmo quando a intenção é descrever o "momento presente". Por entre as palavras, as frases, as pausas; o que é destacado e o que é ocultado, partes de nós podem se tornar visíveis para quem observar.

E quando se observa a si?

Tive a epifania de que a auto-narrativa é inevitavelmente um processo (trans)formador. A disciplina de escrever as próprias perspectivas constrói inevitavelmente caminhos reflexivos sobre si, como albums que reacendem memórias por conterem retratos de um momento em específico. Memórias revividas no percorrer da narrativa - no pensamento alargado, demorado. Aí o "não-dito" se sobressai por um elemento crucial para observar a sociedade hoje: atenção.

Cultivar a presença...

E recentemente tenho retornado com frequência para antigos escritos meus. Toquei partes de mim - em outro tempo. Senti compaixão por ela. Por ela(s). Por mim.

Toda forma humana de responder à realidade é conectada ao acesso que se tem da história de si. 

Memórias não necessariamente "conscientes", e não digo memória como "informação". A memória humana relies on emoções e crenças - não há lembrança que não esteja embebida no contexto identitário e biológico do momento presente. 

Seja contexto histórico, sejam vieses cognitivos: nós não existimos sem um território. 

Identidade e território... Como se (re)territorializar? Tomar a si mesmo como objeto de observação e análise tem de fato "consequências formativas"? Se sim, como mensurar?


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Novas lentes tem me ajudado muito recentemente. Tzolkin e Qigong. Lentes que se tornam "disponíveis" para olhar pra realidade através de um cultivo diário. Lentes que acabam alterando a própria experiência existencial e projeção da "imagem" de mundo (vide "Eles vivem", de 1988).

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Acabo encontrando refúgio nas palavras de outrem, como com as reflexões de Susan¹

"Esses mortos se mostram completamente desinteressados pelos vivos: por aqueles que tiraram suas vidas; por testemunhas - e por nós. Por que deveriam procurar o nosso olhar? 'Nós' - esse 'nós' é qualquer um que nunca passou por nada parecido com o que eles sofreram - não compreendemos. Nós não percebemos. Não podemos imaginar como é pavorosa, como é aterradora a guerra; e como ela se torna normal. Não podemos compreender, não podemos imaginar. [...]" 

¹SONTAG, S. Diante da dor dos outros. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

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