7.14.2021

Paixão

Teve uma época que só queria saber de músicas com aquele toque revolucionário. Algo como letras de garotos podres, misturado com "Animals" e Belchior, numa intensidade tipo Wagner e Yes. Sempre tinha uma melancolia ali... aquela indignação constante e a sensação de impotência, sempre retroalimentando uma a outra. Nesse meio eu acabava ignorando outras questões poéticas da vida... Não me identificava com músicas românticas. Preferiria um Bach à um chopin, um rachmaninoff à um Debussy (Isso significa que eu não me interessava por música romântica, fluída. Queria uma intensidade objetiva, material, concreta).

Claro que aquelas profundidades aleatórias, meu quê filosófico pra vida sempre esteve ali. Mas eu não era apaixonada, entende?

Essas ideias aí vem do jeito que eu ando me julgando ultimamente. Releio coisas minhas e parece que minha "escala" de percepção, observação, sei lá, tem se reduzido... limitado, talvez? Parece que só quero falar de você. Mas não é... Não é isso. Eu falo e penso sobre muita coisa além de você. Só que lá no fim do dia, naquele vazio (como sempre, nada silencioso) antes de dormir, as ideias vão seguindo um fluxo tão natural... e parece que esse fluxo já é tão naturalmente ligado à você 

Aí vem: insegurança, projeção, auto-julgamento. Ansiedade, euforia, melancolia. Meu lado crítico fica confuso, não sei se está tudo bem pensar nessas coisas e me abstrair desse cotidiano estranho, não sei até que ponto é noia ou não é; não sei se deveria só tentar parar e aproveitar as memórias boas que compartilho contigo. E no fim é só um "aff, que saco, tô entrando nisso de novo".

Aí toca música romântica na tv e eu me identifico. O deezer coloca uns sinatra pra tocar no meu aleatório e eu me identifico. Chega um afrobeat numa brisa meio jazz e adivinha o que passa na minha cabeça?

Será que eu não me importo mais com aquelas ideias todas de revolução? Ah. Eu era tão empolgada! Tão... cheia de ideias. E de atitudes também.

Tá. Eu sei que a realidade trás impedimentos, não tô querendo falar aqui das possibilidades concretas de se fazer coisas. É sobre um impulso interno. Vontade de alimentar pensamentos dentro de mim. E sei que você entende bem essa sensação de "foda-se, não tem nada que a gente possa realmente fazer". Só que... Ah...! Isso é muito recente pra mim. É estranho. Antes as coisas coletivas a nível global eram um maravilhoso combustível pra eu cumprir tarefas diárias. Agora... Ah. Agora é diferente. E eu tenho motivação sabe. Cheia de ambições? Só que me sinto... boba... tipo alvo de julgamentos que tempos atrás eu jogava ao vento.

Agora tenho que aceitar que ouço forró, axé, pagode e músicas de paixão e... me... identifico...... 

Sei lá.

Não tô reclamando.

Mas ando me julgando bastante, e isso não faz muito bem... Não aceito dentro de mim muito bem tudo que tá acontecendo. Mas fazer o que, né. Ao menos é recíproco (e tudo que me resta é acreditar nessa faísca de coisa etérea, abstrata, subjetiva, sentimental...)

Se antes era indignação e impotência que me agoniavam, agora é impossibilidade e insegurança. A diferença é que aquele limiar futuro ("horizontes") agora me traz uma tranquilidade que aquela vontade de revolucionar tudo não trazia. Não é uma certeza (longe disso), mas é algo tipo isso (Sim, tô confusa). Não tinha realmente alguém do outro lado, entre eu e o mundo, que correspondesse meus sentimentos - se é que me entende. Ao menos... Agora... sei lá. Acho que me sinto... bem.


7.06.2021

Indigestão

Escorrego corredor à dentro...
Lamento, querendo encontrar - novamente
Aquele momento de epifania.

Mas é como uma ironia, confusa,
Porque o medo me consome
antes dela chegar.

Me nego à fluidez dos dias
Me entregando aos vícios dessas fugas...
Apesar de lembrar que me condicionei à isso porque quis 

É sinuoso, por que, em partes
Tem detalhes que parecem respostas
À pedidos que faço antes de dormir.

E se quem pediu não entendia,
E agora fecham-se as portas
Pra caminhos que eu sempre quis seguir?

Tem uma covardia,
Que escondo atrás de "empatia",
E é ótima a justificativa
De que faço porque amo.

Mas que amor é esse,
Se escondo o quanto sofro,
Pra evitar o desconforto
De admitir o que não quero?

É que talvez... se esconder o suficiente, até de mim mesma, o enredo se desfaça e os eventos fluam praquele clímax gostoso. (Como é fácil se enganar).

Logo chega a hora de fazer o necessário. Logo chega a hora irremediável, o labirinto me levando praquele desfecho desconfortável...

Minto. Eu chegando nas encruzilhadas a partir de caminhos que eu própria trilhei. Como pesam as decisões... as escolhas... Ah. Que frio na barriga. Tempo de mudanças que diz, né?