9.17.2017

Final de tarde de domingo

vento suave encosta a nuca num sublime encontro os silêncios confusos preenchem vazios que se entrelaçam no conforto de suas angústias comuns -  o ar úmido e quente no dia ameno mantém a sensação sempre coletiva do ambíguo sentido que significa conforto.

Distante das paranoias lissérgicas o quarto assume sua dimensão concreta e os carros ecoam mais alto que os pensamentos ou quaisquer desejos que distantemente poderiam neles semear

Talvez, das complexas dinâmicas que as sensações conseguem enebriar seja  a mais factível o ressentimento de não poder ser

8.29.2017

Uma entrevista com o Beethoven

Dizem que agosto nunca acaba. Pois bem, aqui está a terceira postagem do blog nesse mês, algo totalmente inédito - na proporção quase igual do quanto é relevante.

Eu disse:
"por que eu quero tanto que haja reciprocidade
... quero tanto não estar sozinha,
mas estou"

E me lembrei de uma música que um amigo cantava. Especificamente, o trecho "que saudade", de Augusta, Angélica e Consolação, do Tom Zé. Sinto saudade dele, sinto saudade daquele momento que vivi com ele. Sinto saudade daquele tempo, saudade de tempos anteriores àquele. Momentos em que estou no próprio momento.

E vem ansiedade, e vem saudade. E o momento que eu quero, cadê? Vou reescrever um texto sobre o vazio, só ainda não. Falta algo ainda. Então vou escrever sobre um pensamento solitário (meu único caminho, até então, para aproveitar meu momento sem alguém aqui - do meu lado).

Hahahahah quantas frases desconexas! Ah, vida.

Estava eu sozinha num sábado à noite, após um dia igualmente solitário. Consegui aproveitar todos os momentos próprios - estava tranquila, estava disposta. Após ver "Capitão Fantástico" e ter insights sobre traumas de infância, achei que seria ótimo ouvir um som bacana e ficar de boas. O som foi a nona sinfonia de Beethoven, e o de boas foi me alongar à luz de velas.

E é incrível como, apesar de todos os aspectos do momento, a cabeça nunca é refúgio do silêncio, não é mesmo? Imaginei o Beethoven sem ouvir uma nota daqueles violinos escreveu aquela sinfonia. Como? COMO? Sequer tenho conseguido transpassar pelos meus dedos as melodias que permeiam meus pensamentos... E ele, ah! Ele fez aquelas pausas e sons magníficos sem ouvir as ondas mecânicas que eles geravam?

Quem, além dele próprio, poderia responder essas perguntas da forma mais acurada possível? Em termos objetivos e subjetivos (principalmente)?

Então, claro, veio a vontade de poder entrevistá-lo. Mais que isso. Trocar uma ideia com ele. Poder, por segundos, me colocar mais próxima da percepção que ele tinha da vida: pra então, talvez, buscar sentidos aguçados daquilo que é a reprodução que ele construiu.

Mas.. Minha interação com ele não mudaria, talvez, a própria percepção dele a respeito daquilo que ele podia ou não traduzir em palavras? As perguntas que eu gostaria de fazer, de cunho totalmente psicológico e denso, não gerariam um movimento de tentativa de tradução que mudaria a própria concepção dele, devido à restrição de termos da língua e do tempo para se expressar?

Então veio o fluxo. Aquele fluxo imparável de conexão entre informações distintas que chegaram a pontos lógicos gostosíssimos: porém que necessitam de longos parágrafos para o outro (você mesmo) entender. Ah. A questão é que gosto de tentar explicar os fluxos que tenho. Esse foi interessante por que dialogou com as conversas internas que tive após ver aquele filme que citei antes. Lembrei de comportamentos que tenho atualmente em função de eventos que já tinha desconsiderado. Lembrei de fatos importantes para a análise de mim mesma: para a compreensão de padrões caóticos da minha personalidade. Porém expressa-los seria d-e-m-a-s-i-a-d-o extenso então guardei para mim.

A relação entre os assuntos é: Como se traduz o inconsciente? Se ao realizar qualquer ponte para o externo já se ressignifica o próprio ser em si? Seria a comunicação, ao mesmo tempo que uma possibilidade, uma impossibilidade de nos entendermos? (Visto que nos transforma a cada tentativa dela molda o sentimento abstrato/subjetivo à um conjunto concreto/objetivo de símbolos?)

Quando eu perguntasse para o Beethoven "Quem é você?", a resposta dele mudaria quem ele é? A mudança de quem ele é, mudaria o som que ele fez? Somos aquilo que conseguimos expressar? Ou nos tornamos aquilo que há possibilidade de ser expresso?


8.12.2017

Vazio

Todos escrevendo sobre algum momento cotidiano

Eu não quero escrever o que está acontecendo, quero escrever o que sinto (o que sou?). Não me conheço - ou, talvez, me conheça - tanto que não consigo expor em palavras

Vazio

* Na última quarta tive aula de arte e loucura. O Ney fez uma atividade de termos que escrever continuamente: sem pontos, sem parágrafos; apenas colocando palavras que viessem à mente após olharmos grupos de imagens/vídeos. Não conseguia saber o que era pra escrever ali. Na minha cabeça? Bom, na minha cabeça tinha a possibilidade estudar piano que não acontecia por eu estar ali; a aula da noite que não queria ir; os trabalhos que tinha que entregar no dia seguinte; estava, enfim, o conjunto das minhas ansiedades.

Mas eu dialogo com elas. Sempre. Sei o que me agonia. Seja passado ou presente. A diferença é que a ânsia pelo que virá só se resolve quando vem. Será que era isso que eu tinha que escrever?

Fiquei pensando nisso quando o pessoal leu as suas anotações. Alguns fizeram frases clichês existenciais, a maioria colocou o que estava acontecendo. É isso que passa pelo infinito do imaginário que eles construíram em toda a vida? Não sei. Sei que percebi minha agonia ao escrever. Aquela velha, aquela da cobra. O vazio me consome. E o vazio não vem só quando eu chamo, as vezes é involuntário. As vezes é bom, na maior parte das vezes é angustiante. Veio agora, enquanto assitia 70's show. Veio o que eu gostaria de falar sobre o que escrevi, lá na aula. É o trecho no início do texto. Hoje teve alguns breves momentos que o conceito de "atos falhos" teve sentido. Conscientemente perguntei "será?", e veio novamente. Então parei, "não, pera!" e voltou. E fluiu. E foi gostoso escrever. Ah!

Não está tal qual pensei. Nunca está. Mas ficou próximo. O sentido ainda é dúbio. Alguns vão achar que entenderam, e que bacana! Porém só saberem se o fizeram de fato, se conseguirem retribuir minhas conclusões. Será que alguém faria isso?

7.12.2017

O Gato de Schrödinger e minha Interação Social


Me sinto à margem das interações sociais, distante de algo que gostaria de estar perto, mas meus traços de personalidade não condizem com essa possibilidade. E naquele fluxo intenso de perguntas e respostas, chego naquele lugar: nenhum.

Gosto de analisar dados. Entender como as coisas funcionam, o que levam elas a funcionarem. Porém, em determinado aspecto, minha análise parece sempre envolta em determinantes subjetivos que eu desconheço. E como proceder?

Esse texto parece não estar ficando claro. O que é mais estranho (ou cômico?) ainda. Queria expor aqui a minha impossibilidade de tomar atitudes em relação à interação social. E na tentativa de começar pelo sentimento, me perdi. (Ou foi na tentativa de fazer o outro entender? Oh!)

É sempre assim. Louvo aquela racionalidade por me propiciar momentos tão lúcidos, mas é só chegar os inebriantes sentimentos que ela de pouco serve - à mim, no caso. 

O Gato. 

O caso do gato é estar morto e estar vivo ao mesmo tempo - tal qual, talvez, seja meu ser (não) social. Acho que, profundamente, estou esperando a caixa ser aberta. Só que... Densamente, sei que ela está tão aberta, quanto fechada. 

E chega o silêncio do outro, me observando. Estava tão bom observar ele, antes de eu notar as breves respirações. Não, não olhe pra mim. Não olhe pra mim pois não saberei como reagir. Afinal, quando eu for falar com você, o gato estará vivo, ou estará morto? Eu estarei em você, ou você tentará estar em mim? 

6.08.2017

Eu?

Lapidei dentro de mim um muro
Do outro lado deixei meu ser,
Moldei-me aqui ao que queria estar;
E automatizei até natural parecer.

Agora é confuso o espontâneo,
As linhas ora tênues se entrelaçaram num labirinto
no qual acredito há tempos ter me perdido

Que angustiante tangenciar seres que de mim mesma escondi

9.07.2016

Lembranças: Canção de Êxtase

Sentados em uma roda, discutiam teorias e concepções do universo. O tempo ou o espaço, muito além daquele diálogo filosófico, era o não percebido: a grama seca e macia, o sol aquecendo de leve por de trás das nuvens, o cenário - Ah! O cenário. No horizonte verdes vales cercados por um gostoso sentimento de tranquilidade, junto com a visão e o som das águas se encontrando na lagoa ao lado. O vento, suave, também colaborava com a sinfonia quando tocava a folha das árvores.

Não tinha nada a ver com os buracos negros ou as variadas dimensões em pauta, mas aquele momento - naquele lugar. "Já está na hora da aula", um disse. Todos se levantaram e se dirigiram à seus destinos. Pensativos, porém, noutro lugar senão o da aula. "Que momento... Estonteante" pensavam, em uníssono, mesmo sem expressá-lo em palavras. "Como é bom viver".

Enquanto isso, o universo continuava lá. A grama, o lago, o vento e as árvores. Tocando a mesma melodia - a qual uns chamam de vida - que os rapazes, sem notar, participaram.

O que melhor do que fazer parte dessa bolha dimensional de sentidos, para sentir vontade de viver?

8.07.2016

O dia em que eu me amei

Sempre gostei de receber massagem, receber carinho. Aquela sensação de conforto, acompanhada do clássico arrepio na coluna vertebral que relaxa até a imaginação. O engraçado é: nunca tinha me dado conta que poderia massagear a mim mesma. Me auto curar, me auto relaxar, me auto amar.

Até que, num sábado à noite solitário, depois de um ótimo dia solitário, senti vontade de curtir um som. Era quase meia noite, eu não sentia sono, e fazia tempo que não comia (fiquei preocupada com isso), mas não sentia fome. Coloquei meu som favorito do momento, desliguei a luz, deitei na cama. Fechava os olhos, abria. Virava de um lado, virava doutro. Queria não pensar – como faço sempre quando deito na cama – queria só curtir o som. Nessa vontade, acabei tendo o raciocínio do porque gosto das músicas que gosto (bem interessante por sinal).
Tentando desesperadamente curtir o som comecei a regular minha respiração, dando toda atenção ao meu diafragma. Deitei de barriga para cima, flutuei um pouco nas reviravoltas da música. Midnight Mushrumps é estonteante. Vinha um pensamento, tentava ouvir meus batimentos. Respirava mais fundo. Por que é tão difícil relaxar?
Aí veio a ideia genial: como seria bom uma massagem facial agora. E eu não tenho duas mãos? E eu não estou a deriva aqui nessa cama? Por que eu não faço isso? E fiz. E foi bom. E foi muito bom. Eu sabia o que eu queria; eu sabia onde queria. Poder controlar a intensidade e a periodicidade dos movimentos me deixava numa satisfação animadora. Começou a doer o meu braço – eu já estava bem dolorida no dia, pois viajei no dia anterior – então levantei, peguei o creme de massagem que estava no banheiro, fiz massagem no braço. Fiz massagem no outro braço. E o som continuava.
Acariciei meus ombros, que, tadinhos, estavam tensíssimos. Tive aqueles arrepios na dorsal que pareciam soltar do tecido aos ossos. Às vezes eu “travava” (complicado descrever sentimentos: sentia numa fração de segundo, e vou demorar um parágrafo pra explicar). Parecia que por ser eu fazendo, perdia a graça. Não era tão bom. Era a droga de pensamento me invadindo, e eu tinha que fazer barricadas mentais pra não me deixar levar. Era um vaivém louco, rápido, instantâneo. Ainda bem que tinha o som. Chegava num reboliço confuso que eu só pensava: “PARA! Olha ali, o som ta ali, curtir o som. Curtir o som. Curtir. O. Som.” as vezes funcionava bem, as vezes não. De qualquer forma consegui me acalmar, consegui me curtir. E, ah!, como é bom poder se curtir.