6.30.2026

Fragmentos

Singularidade. 

Manter um registro com data verificável é tipo selo de garantia de jóia. Diferente da nossa memória, que transfigura o ocorrido ao longo das décadas, o registro detém um estado, num tempo-lugar que não existirirá de novo.

.

“Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem se não o que somos”. 

Não há percepção senão o que percebemos. Não há processamento senão do que pode ser “captado” e “significado” no momento presente, com as ferramentas de observação e interpretação disponíveis. Estudar mais e mais neurociência repete isso com diversas frases distintas… Mas prefiro ainda Bernardo Soares.

.

O cérebro aprendeu que a tarefa vem acompanhada de dor.

.

Imagine que um indivíduo quebra o fêmur. Após o período afastado, ele retorna ao trabalho. Seria cabível designar a esse indivíduo tarefas que exigem árduo esforço físico, subindo e descendo escadas, que necessitem agachamento ou movimentos semelhantes?

Agora imagine que um indivíduo foi diagnosticado com ansiedade e depressão. É evidente que tipo de contexto seria saudável (ou não) no retorno imediato desse funcionário? Ele pode plenamente exercer o que a rotina laboral exigia antes? 

Como lidar com uma realidade invisível?

A série sobre Césio-137 em Goiania pode ajudar a ilustrar essa imagem de que, apesar de não ser visível, há fenômenos que, se ignorados; se encaminhados incorretamente, podem desencadear impactos absurdamente malignos à saúde de quem é exposto.

A questão residual: como “mensurar” níveis saudáveis de “exposição” à riscos psicossociais? Como acompanhar essas métricas?

5.28.2026

Prioridades

Ideias sobre saúde. Refeições nutritivas e regulares, remédios regulares. Atividade física regular, sono regular, exposição regular ao sol.

Ideias sobre paz. Meu corpo, minha família, minha casa. A tranquilidade de que a “segurança sobre a sua propriedade” é garantida.


Ideias sobre comunidade. Interações sociais regulares, com comunidade, com amigos e família, partilhando atividades, ideias, sentimentos. Planos, conquistas, adversidades… 


Segundo a pirâmide de Maslow aí estão os três primeiros degraus rumo à autoestima e conseguinte realização pessoal, descritas sob o meu viés do momento presente.


Todos os elementos que constituem os três primeiros degraus (fisiologia, segurança e relacionamentos) dependem de um ambiente externo que seja também estável: acesso à água e comida de qualidade; acesso à atendimento médico, correto diagnóstico e tratamento; condições financeiras de arcar com tudo isso e para realizar a manutenção da casa.


E se o indivíduo está num contexto em que o acesso à esses elementos fundamentais é dificultado? Ou até inacessível?


Há alguém que discorde da necessidade fundamental de estarmos saudáveis, seguros e socialmente inseridos para que a autoestima e realização social sejam desenvolvidas?

E se doentes, inseguros e isolados?

.

Tenho estudado pouco, interagido pouco, criado pouco. Pouco em relação ao que já fiz, pouco em relação ao que gostaria de estar fazendo. Muito, em relação ao que há poucos meses fora minha realidade cotidiana.


Apesar da “mudança de ritmo” que tive, vêm à superfície da memória ideias outrora partilhadas e aprofundadas que transformaram minha percepção sobre esse dia a dia humano ocidental, a exemplo da pirâmide ilustrada... Uma "imagem" que provoca reflexões sobre hierarquia e causalidade; sobre exposição à estímulos, formação da identidade, ambiente e cultura; sobre a materialidade da existência humana, o peso da desigualdade e a heterogeneidade das condições de diferentes populações...


Sobre como somos parte de um todo - e que esse "todo" altera substancialmente quem somos e quem podemos nos tornar.


Não há saída individual para uma enfermidade que é coletiva.




2.09.2026

Emotional Intelligence

"Can I ask something?"

"No, I'm pissed now." 

This could be said in a polite tone - no doubt. But managing one's own tone when mad is quite rare around here. So I listen. And I stay quiet. I give some more space for him:

"Imagine if you didn't shut it down..."

And the same words, full of rage, come again. 

"Can you believe that this is not the first time someone says those things to me?", I say, calmly.

More rage.

"I'm so thankful that you were here."

And more rage.

He wanted to argue that "the shock" (meaning: telling me "what's right" in an emotional altered tone, over and over again) is "the way" of changing someone else's behavior. 

I disagreed. It's simply not true. But he wasn't there to talk. He was there to preach. And he did.

And I listened.

I gave it some time, poured a bit of the food, said I was thankful for everything and that it wouldn't happen again. Kindly.

Just being there was heavy. Hard to describe. Well, he was the reason I didn't leave the room in the first place. Today I had a little piece of his "directed emotional attention", I guess.

There was so much anger in that man. So much hate. He truly believed that talking to me like that, using that tone and repeating over and over was the right thing to do. 

I had noticed already he hasn't been open for talking sessions - even when nothing was apparently "bothering" him. That rage is not just about what happened. Or about me. Is bigger than that. Somehow I'm pretty sure of it but I can't explain why. 

I'm happy with my response. How I answered, how I listened, how I addressed. It took tons of self regulation, on spot. No rest, no prep. I guess all that social-emotional studies were good for something after all...


.


What I wanted to ask:

"How long does it take for you to let this anger go? How long does it take for you to forgive me?"

You can be upset about anything I do, yet, it doesn't give you the right to preach me. It doesn't matter if I'm under your roof, even if I was your daughter. I wonder how you could learn that... 

No feeling allows you to throw your emotions towards someone. 

That's not "teaching". That's regurgitating. 

I'm being respectful and listening because I think this is the best thing to do in the moment - since you're not open to talk at all and this behavior seems to be a constant from you.

As I wanted to say, but you didn't let me say it: I believe people can change. I really do. There's always something to be learned. And there's lots and lots of paths for that to happen. I'm open to change and I really am grateful for the opportunity of learning (or "unlearning") behaviors.

I wish you could see yourself a bit more, and actually listen to others. It would be so good for your family. And God knows to what else...


.


Extra: His wife cleaned up the mess. As I got to the kitchen she was finishing it. I asked if it was from what I left there, and she complied. And I thanked her. "No problem". And that was it. And she left. She knew what was coming - she knows her husband. And she remained away and quiet. She looked tired from the day already, but she cleaned up my mess and didn't bother for it. Even if she was upset about something. she restrained it. She didn't throw up any emotions on me.

Well, as a grown-up woman I felt like I was facing a battle while listening to that man. A battle to keep myself unharmed by the hatred spilled in between words. Reacting would be way easier, but all that anger wasn't mine. Nothing had happened. Everything was safe and sound. If he wanted to be pissed of by it that's not on me. His feelings are his and I don't need to respond emotionally to it. Even though I could sense all that anger he wasn't disrespectful through his words. He knows how to do it. Manipulate other's feelings with harmful tone instead of harmful words.

Even if I was upset about anything I wouldn't show him my innermost feelings -  and that was my defense. My passive attack was reassuring him that I understood what he said, acknowledging, repeating, showing I was giving space for thought and realizing the situation with his lens, plus my own reflections about my behavior. Always recognizing how wrong I was and how terrible that situation could have been.

I imagine how this aggressive and manipulative behavior, from a grown-up man, would be felt by a little kid... 

Nothing like living with in-laws to understand a husband better.


1.05.2026

Reconexão

"Se você não lembra quem você é, como pode estar cumprindo seu propósito?"

Toda narrativa de mundo é uma narrativa de si.

 Ao narrar, muito do "si" se torna evidente:

Vocabulário, repertório,

lugar em que nasceu no mundo.

Vieses, medos, anseios.

Idade. Rotinas.

Vícios.

Intenções.

.

O que é priorizado naquilo que compartilhamos diz muito sobre nós, nossos propósitos, nossa identidade.

A narrativa permite expressarmos tanto de quem somos... Mesmo quando esse não é o objetivo. Mesmo quando a intenção é descrever o "momento presente". Por entre as palavras, as frases, as pausas; o que é destacado e o que é ocultado, partes de nós podem se tornar visíveis para quem observar.

E quando se observa a si?

Tive a epifania de que a auto-narrativa é inevitavelmente um processo (trans)formador. A disciplina de escrever as próprias perspectivas constrói inevitavelmente caminhos reflexivos sobre si, como albums que reacendem memórias por conterem retratos de um momento em específico. Memórias revividas no percorrer da narrativa - no pensamento alargado, demorado. Aí o "não-dito" se sobressai por um elemento crucial para observar a sociedade hoje: atenção.

Cultivar a presença...

E recentemente tenho retornado com frequência para antigos escritos meus. Toquei partes de mim - em outro tempo. Senti compaixão por ela. Por ela(s). Por mim.

Toda forma humana de responder à realidade é conectada ao acesso que se tem da história de si. 

Memórias não necessariamente "conscientes", e não digo memória como "informação". A memória humana relies on emoções e crenças - não há lembrança que não esteja embebida no contexto identitário e biológico do momento presente. 

Seja contexto histórico, sejam vieses cognitivos: nós não existimos sem um território. 

Identidade e território... Como se (re)territorializar? Tomar a si mesmo como objeto de observação e análise tem de fato "consequências formativas"? Se sim, como mensurar?


.

Novas lentes tem me ajudado muito recentemente. Tzolkin e Qigong. Lentes que se tornam "disponíveis" para olhar pra realidade através de um cultivo diário. Lentes que acabam alterando a própria experiência existencial e projeção da "imagem" de mundo (vide "Eles vivem", de 1988).

.

Acabo encontrando refúgio nas palavras de outrem, como com as reflexões de Susan¹

"Esses mortos se mostram completamente desinteressados pelos vivos: por aqueles que tiraram suas vidas; por testemunhas - e por nós. Por que deveriam procurar o nosso olhar? 'Nós' - esse 'nós' é qualquer um que nunca passou por nada parecido com o que eles sofreram - não compreendemos. Nós não percebemos. Não podemos imaginar como é pavorosa, como é aterradora a guerra; e como ela se torna normal. Não podemos compreender, não podemos imaginar. [...]" 

¹SONTAG, S. Diante da dor dos outros. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

12.03.2025

Agnes

 Era uma vez uma flor.

Seu nome era Agnes, e sua vida começou quando era apenas uma semente. Veja, há diversas oportunidades para uma semente. Dentre tudo no mundo que poderia ter, Agnes conheceu a terra macia de um pequeno vaso. Envolta em umidade e escuridão, seu primeiro sopro de vida foi buscar a luz - e isso foi uma tarefa árdua.

 De tanta força que fez Agnes ficou alta. Ela se sentia muito descompensada, não conseguia parar em pé. Precisou de uma muleta. 

Aquela muleta a acompanhou por muito tempo, talvez (provavelmente) mais do que o necessário. Seus pais eram superprotetores, e era a primeira vez que eles tinham uma Agnes. Como pais de primeira viagem (não tão bem informados) demoraram para entender que ela já era grandinha e precisava de um vaso maior. Até que o novo vaso chegou.

Às vezes a vida faz disso: mexe tanto com a gente que murchamos, perdemos o brilho, parecemos tão frágeis que há quem suponha que não vamos conseguir. Bastava uma boa noite de sono (toda aquela luz podia ser muito estressante...) ou um bom fole d'água e Agnes se reerguia, sempre esbelta e cheirosa.

Não foi fácil mudar de vaso. O conforto de antes mantinha tudo estável, não gerando preocupações. Mas foi o caos da mudança que a fez crescer.

Os dias foram passando... E seus pais foram ficando mais ausentes. Esqueciam de pô-la no sol, ou esqueciam da água... E sem esse amor diário Agnes estagnou. Talvez quisesse florir e não conseguia, não tinha como saber.

Agnes, mesmo assim, resistia. Se reerguia a cada dia, cheia de sede de viver.

Mas Agnes não chegou a florir.

Jamais saberemos o que seria dela. Sabemos apenas que sua existência foi um ato de resistência, regado à amor e rebeldia.

Agnes virou sacrifício. Seus pais conversaram e decidiram que era a melhor opção.

É que nem todas as plantas tem o direito de viver nesse mundo - e Agnes era uma delas. Não era culpa dos pais a discriminação, mas eles seriam culpados caso Agnes fosse descoberta.

A semente já vem ao mundo com o propósito de ser semeada, e assim foi Agnes, quase sem querer. 

E por que será do motivo que algumas plantas possam viver e outras não?

A semeadura, na noite escura, é rebeldia esculpida no concreto moderno. Força e resistência permeiam a jornada da planta, que renasce e se adapta a cada mudança de habitat.

E quem não resiste... Perece.

Não pereçamos, ainda.

Agnes encontrou seu propósito no sacrifício.

Em que encontraremos o nosso propósito?

2.02.2023

Mirror

If I knew as much as you do about yourself
How would you act?
What would you ask?
How would you feel?

And how could that be possibly real
If the self is something else beyond the perception we have about ourselves?

Then...
Would I see you as you do,
Or would I perceive you as you are?
Would I understand you as you do
Or would I be biased about you as we all are about ourselves?

.

Espelho, espelho meu
Quem eu vejo realmente sou eu?

1.25.2023

Sinais

Tem uns finais de tarde que esfria tanto logo que o sol se vai... tem outros dias que o vento é forte, mas não tão gelado. E é uma *mudança tão intensa entre uma parte do dia e outra

E é interessante notar as mudanças no céu porque muitas vezes fazem sentido. Se olhar as previsões, com imagens das massas de ar se movimentado, muito faz sentido. Não é como se fosse previsível cada mínimo detalhe, é mais sobre uma visão do todo *que nos ajuda a nos prepararmos para o que virá.

As vezes parece que a tempestade é repentina.

Talvez seja, na verdade, uma falta de atenção aos movimentos do céu.

Estar alerta é trabalhoso, mas será que vale a pena adormecer? Atordoar-se pra conseguir ignorar a realidade? Esquecer do que é uma tempestade pra em breve sentir medo, desespero, despreparo frente ao que pode acontecer? 

O céu dá sinais. As nuvens, os passaros, a direção do vento. Uma vez que se aprende a observar alguns fenômenos é quase como se eles conversassem com você.

.

[Julho de 2022]

1.21.2023

Momentum

Esses amigos que a gente conquista sem perceber

Esses momentos que desaparecem no turbilhão do dias...

Encolher frente à imensidão, 

Se realizar nos pequenos detalhes,

Pequenas chaves que abrem novas moradias...

Aprender a habitar cada dia.

.

[03.07.2022]

6.11.2022

Miragem

It's not our experiences the source of our "identity", is it? (The "who we are" thing. Deeply. That inner concept of "being", of "self", or whatever is the correctly or better way to say it... So hard to talk about, it seems). It's what we have chosen to become with those experiences.

Does it make difference to pass through a huge amount of situiations if we don't grow with it? If we don't think about it, we will be changed by either way, possibly without our perception of it. But if we thinkabout it, if we have the courage to look into ourselves, we will choose the path. We can choose, at some level -the direction of who we want to become.


Who am I going to be?

Am I paying attention to myself?   

Conexão

 What am I connected to?

After getting something I suddenly I search for it a little bit deeper... So fast, if I could put into words as fast as it happens it would be like a short documentary. Lots of... Thoughts.

Such as: why am I connected to this? How did I get at this point? And, ahm, the most important doubts about myself: Do I want to keep these connections? Do I want to change it, to improve it, to let it go? Which is, itself, a inner dialogue about being able to connect past, present and future 'selfs' from the bigger picture "myself". Also, this is an attempt to actualy choose who I want to become. Connecting to myself to build another self. 

I guess was something like that...   

10.10.2021

Ansiedade

Ê algum tipo de arquivo (corrompido)
que desfoca... o tempo.
Uma confusão com o que se é
Por que, afinal, o que somos
se não um infinito presente?

Aí tem essa tensão.
Um descompasso...
A sensação de angústia,
um instinto de renúncia
Dessa repetição exaustiva.

Aquela aflição,
daninha,
que se infiltra nos detalhes de cada dia...

Basta um pequeno deslize.
Uma desatenção
E já começou... de novo

O axioma do porvir
No desagrado de sentir
Que ainda é hoje
E sempre vai ser.

9.24.2021

Lapso

Saudade daquela sensação
De dilatação do tempo...
Não.

Saudade de saber
Que compartilhei um momento
Onde a percepção mudou;
Afinal, nunca foi
O tempo
Que dilatou...

Sempre foi essa paixão,
Um tipo de conexão
Profunda,
Que só acontece
Quando te sinto
Dentro de mim.

9.15.2021

Romance

Meu amor,

Pode parecer coisa boba,
Essa vontade toda que tenho
De todo dia acordar você.

Juro que não é só em você que penso!

Me dedico com muito carinho
À todos esses pedacinhos do dia
Que cobram minha atenção.

Mas... você...

Talvez seja idealização, quem dirá
Talvez até ilusão.
Nessa loucura desses tempos
Que mal faria se fosse?

E algo em mim sempre diz que não.
Que não é mentira;
Que você me ama,
Como eu te amo.

E que outras palavras mais eu poderia escrever
Pra caber o tanto de vontade que me dá
De viver... pensar em você, ah!

Logo a gente se encontra

Te amo.

8.14.2021

Portas

Não é sobre ver a paisagem
É perceber sensações
Conexões entre ideias

Se dar conta que capturou algo
E se esforçar ao máximo
Pra não perder por aí

Essa... AH.. força pra não deixar o laço se desfazer
Buscar algo pra agarrar
E deixar lá, descansando,
Até que eu possa voltar e continuar

Epifanias arquivadas... É.

Só as vezes a sensação
É de que
Não foi eu quem fizera o arquivamento...
Ou ao menos, não lembro
Essa outra coisa que grava coisas em mim
Sou eu também?

8.11.2021

Queda

Tem vultos que passam
algo como,
memórias inquietas,
revoltas... inevitáveis
que estragam
essas instáveis linhas
entre o que sou, o que quero
e o que penso.

As aspirações internas logo se...
despedaçam.

e por que é tão facil se perder?

São fraternas as vontades, 
possibilidades de começar
de novo e de novo...
Tudo que já disse que queria,
tudo que já escrevi, que já fiz,
tudo o que já poderia ter feito.

E me resta esse deleite,
um vislumbre de que sei o que faço;
de que sei que me perco,
de que aceito que esqueço 
nesses minúsculos espaço-tempo de escolhas...

Abandono meus propósitos,
abandono à mim.

Tão momentâneo, tão sorrateiro,
tão certeiro esse pânico
de que se repete a narrativa
onde rompi minha própria
expectativa

E no fim o que me resta
é essa crítica auto ifingida,
(outro vulto que me alucina)
essa tortura silenciosa
que me submeto

todos os dias. 


8.04.2021

Semipleno

Uma sensação de... conexão.
Sentidos encontrados numa espontaneidade,
ainda que no meio dessa virtualidade toda,
me faz navegar nesses relances de inspiração.

São aquelas sinfonias escondidas,
Que, de quando em vez, são percebidas nessa coisa recíproca

Aí... O tempo se evapora todinho.

E é tudo muito gostoso,
tão gostoso que deixa aquele gosto
de que foi embora um tipo de iluminação...

Quero continuar esse fluxo de pensamentos sincronizados.
Quero me encontrar em você,
nesses passeios de ideias... nessas aleatoriedade cotidianas,
nesses resgates de partes de mim, ocasionados no toque singelo que faço em ti.

Momentos que me levam aos sorrisos sinceros,
ideias que me conduzem àqueles mundos internos....

Translúcidas imagens de sentimentos que me...
reanimam, 
pra essa tortuosa viagem mundana





8.03.2021

Ciência

Ah, como é gostoso ler Rubem Alves. As narrativas cotidianas transformam as linhas de raciocínio em momentos tão... digeríveis. Apesar de qualquer complexidade tudo ali parece ser compreensível. Me faz pensar sobre linguagem, comunicação, experiência, memória. Ahh tudo se interligando numa velocidade que a escrita não acompanha. Que eu ainda não acompanho.

Algo sobre... sonhos. São produtos de vivências e experiências assimiladas enquanto acordados, misturadas a n fatores da própria subjetividade. Incluem códigos, interpretações, sentimentos. Sem serem objetos de análise contínua podem ser comumente esquecidos: sem maiores significações pelo sonhador. Mas não é por que não se lembra e nem por que não entende que o sonho não esteja lá, e que não seja porta de entrada pra milhares de perspectivas sobre si mesmo.

Assim é o conhecimento: um algo construído a partir do que se vive, codificado entre as subjetividades e as linguagens humanas. Metamorfosiamos a experiência em cadeias de pensamentos, codificados os raciocínios tentamos colocar pra fora, de forma que outro alguém possa entender. Refutar, complementar...

E é um caminho tortuso: assimilar, transformar, codificar, comunicar... tanto se perde nisso tudo, tanto se constrói... Ah. A mente humana, a memória, o tempo

Não seria a endeusificação da ciência uma busca por "fortes", por bases sólidas que nos orientem no meio de tanta confusão? Confusão, primariamente, mental. Confusão que começa na dúvida da existência - seja das coisas, seja de si... papel já tão exercido pelas religioes mundo afora...  Uma busca coletiva por conhecimento que desemboca na subjetividade... Não sei. Difícil acompanhar esse fluxo de ideias

7.14.2021

Paixão

Teve uma época que só queria saber de músicas com aquele toque revolucionário. Algo como letras de garotos podres, misturado com "Animals" e Belchior, numa intensidade tipo Wagner e Yes. Sempre tinha uma melancolia ali... aquela indignação constante e a sensação de impotência, sempre retroalimentando uma a outra. Nesse meio eu acabava ignorando outras questões poéticas da vida... Não me identificava com músicas românticas. Preferiria um Bach à um chopin, um rachmaninoff à um Debussy (Isso significa que eu não me interessava por música romântica, fluída. Queria uma intensidade objetiva, material, concreta).

Claro que aquelas profundidades aleatórias, meu quê filosófico pra vida sempre esteve ali. Mas eu não era apaixonada, entende?

Essas ideias aí vem do jeito que eu ando me julgando ultimamente. Releio coisas minhas e parece que minha "escala" de percepção, observação, sei lá, tem se reduzido... limitado, talvez? Parece que só quero falar de você. Mas não é... Não é isso. Eu falo e penso sobre muita coisa além de você. Só que lá no fim do dia, naquele vazio (como sempre, nada silencioso) antes de dormir, as ideias vão seguindo um fluxo tão natural... e parece que esse fluxo já é tão naturalmente ligado à você 

Aí vem: insegurança, projeção, auto-julgamento. Ansiedade, euforia, melancolia. Meu lado crítico fica confuso, não sei se está tudo bem pensar nessas coisas e me abstrair desse cotidiano estranho, não sei até que ponto é noia ou não é; não sei se deveria só tentar parar e aproveitar as memórias boas que compartilho contigo. E no fim é só um "aff, que saco, tô entrando nisso de novo".

Aí toca música romântica na tv e eu me identifico. O deezer coloca uns sinatra pra tocar no meu aleatório e eu me identifico. Chega um afrobeat numa brisa meio jazz e adivinha o que passa na minha cabeça?

Será que eu não me importo mais com aquelas ideias todas de revolução? Ah. Eu era tão empolgada! Tão... cheia de ideias. E de atitudes também.

Tá. Eu sei que a realidade trás impedimentos, não tô querendo falar aqui das possibilidades concretas de se fazer coisas. É sobre um impulso interno. Vontade de alimentar pensamentos dentro de mim. E sei que você entende bem essa sensação de "foda-se, não tem nada que a gente possa realmente fazer". Só que... Ah...! Isso é muito recente pra mim. É estranho. Antes as coisas coletivas a nível global eram um maravilhoso combustível pra eu cumprir tarefas diárias. Agora... Ah. Agora é diferente. E eu tenho motivação sabe. Cheia de ambições? Só que me sinto... boba... tipo alvo de julgamentos que tempos atrás eu jogava ao vento.

Agora tenho que aceitar que ouço forró, axé, pagode e músicas de paixão e... me... identifico...... 

Sei lá.

Não tô reclamando.

Mas ando me julgando bastante, e isso não faz muito bem... Não aceito dentro de mim muito bem tudo que tá acontecendo. Mas fazer o que, né. Ao menos é recíproco (e tudo que me resta é acreditar nessa faísca de coisa etérea, abstrata, subjetiva, sentimental...)

Se antes era indignação e impotência que me agoniavam, agora é impossibilidade e insegurança. A diferença é que aquele limiar futuro ("horizontes") agora me traz uma tranquilidade que aquela vontade de revolucionar tudo não trazia. Não é uma certeza (longe disso), mas é algo tipo isso (Sim, tô confusa). Não tinha realmente alguém do outro lado, entre eu e o mundo, que correspondesse meus sentimentos - se é que me entende. Ao menos... Agora... sei lá. Acho que me sinto... bem.


7.06.2021

Indigestão

Escorrego corredor à dentro...
Lamento, querendo encontrar - novamente
Aquele momento de epifania.

Mas é como uma ironia, confusa,
Porque o medo me consome
antes dela chegar.

Me nego à fluidez dos dias
Me entregando aos vícios dessas fugas...
Apesar de lembrar que me condicionei à isso porque quis 

É sinuoso, por que, em partes
Tem detalhes que parecem respostas
À pedidos que faço antes de dormir.

E se quem pediu não entendia,
E agora fecham-se as portas
Pra caminhos que eu sempre quis seguir?

Tem uma covardia,
Que escondo atrás de "empatia",
E é ótima a justificativa
De que faço porque amo.

Mas que amor é esse,
Se escondo o quanto sofro,
Pra evitar o desconforto
De admitir o que não quero?

É que talvez... se esconder o suficiente, até de mim mesma, o enredo se desfaça e os eventos fluam praquele clímax gostoso. (Como é fácil se enganar).

Logo chega a hora de fazer o necessário. Logo chega a hora irremediável, o labirinto me levando praquele desfecho desconfortável...

Minto. Eu chegando nas encruzilhadas a partir de caminhos que eu própria trilhei. Como pesam as decisões... as escolhas... Ah. Que frio na barriga. Tempo de mudanças que diz, né?

3.30.2021

Borboletas

O trabalho é interno
E jamais individual(ista)

Os momentos que surgem faíscas de transcendência são bem mais numerosos quando compartilhados. Foram mais intensos também. Algo como... "te encontro nesse ponto aqui, ao meu lado, nesse momentâneo frame de existência, e contigo senti minha percepção da realidade mudar"

Partilhar a existência. Na felicidade e na tristeza, na saúde e na doença... E será que sempre sei quando partilho ou não? Será que controlo o quando absorvo ou não?

É paradoxal, porque, ainda que sejamos um todo - eu, você, o meio - somos partes únicas inteiras. E essa sensação de transcendência só acontece quando junto do todo, quando em contato com um intangível que vai muito além de mim - mas que só sinto dentro. Sei que está no outro por olhares, palavras, gestos. Mas, ainda assim, é de uma abstração e subjetividade tão densos que não respondem a unicidade da existência. Não respondem esse contraponto entre eu ser um todo e você ser um todo mas sermos, juntos, um só.